CRÔNICA
UMA MEDITAÇÃO PARA O DIA DOS NAMORADOS
UM DIA, ENQUANTO ESPERAVA O EMBARQUE DE UM VÔO, JÁ MUITO ATRASADO, COMO COSTUMO FAZER NESSAS OCASIÕES, COMECEI A REZAR O TERÇO. QUANDO TERMINEI, UMA SENHORA QUE ESTAVA ACOMPANHADA DE OUTRA, QUE DEVIA REGULAR A MESMA IDADE QUE A PRIMEIRA, PERGUNTOU-ME SE EU ORAVA SEMPRE COM O TERÇO, DISSE-LHE QUE SIM. ELA SORRIU E CONTOU-ME QUE PARA ELA E PARA A IRMÃ, A OUTRA SENHORA, O TERÇO ERA O SÍMBOLO DO AMOR QUE SENTIRAM PELOS SEUS FALECIDOS MARIDOS. COMO EU FIZ ALGUMA EXPRESSÃO DE ESPANTO, FEZ UM GESTO DE PACIÊNCIA QUE ANUNCIAVA A EXPLICAÇÃO E DISSE:
- NÓS DUAS CASAMOS NO MESMO DIA, QUANDO ESTÁVAMOS PRONTAS NO QUARTO, AS DUAS LINDAMENTE VESTIDAS DE NOIVA, MINHA MÃE ENTROU COM DUAS CAIXINHAS, SENTOU-SE NA CAMA CONOSCO E DISSE QUE ESTARIA ALI PARA GARANTIR A NOSSA FELICIDADE E A CADA UMA DE NÓS DEU UM TERÇO DE OURO. COMO AGRADECÊSSEMOS, MAS SEM, OBVIAMENTE, ENTENDER O QUE ELA QUERIA DIZER, FEZ-NOS PROMETER QUE JAMAIS DEIXARÍAMOS NOSSOS ESPOSOS ENQUANTO AS LÁGRIMAS QUE ELES NOS FIZESSEM DERRAMAR NÃO ATINGISSEM O TOTAL DAS CONTAS DO ROSÁRIO, QUE É O CONJUNTO DE TRÊS TERÇOS INTEIROS E QUE, PARA CADA LÁGRIMA ROLADA DEVÍAMOS REZAR UM TERÇO INTEIRO MEDITANDO NO OCORRIDO E QUAL A CULPA QUE TIVEMOS NO EPISÓDIO E, ASSIM, SE NOSSA CULPA FOSSE MAIOR QUE A DELES, FICAVA DESCONTADA A LÁGRIMA E AQUELA NÃO VALIA. MAS SE UM DIA, FOSSE INSUPORTÁVEL A PONTO DE ATINGIR O TOTAL DE CADA UMA DAS 59 CONTAS DOS 3 TERÇOS, ENTÃO, E SÓ ENTÃO, ESTÁVAMOS AUTORIZADAS A ABRIR UM ENVELOPE QUE NOS DEU JUNTO COM OS TERÇOS. HORTÊNSIA- APONTOU PARA A IRMÃ – JAMAIS CHOROU UM TERÇO COMPLETO, EU, NO ENTANTO, CASEI COM UM HOMEM MAIS POBRE, MAIS RUDE E HOUVE UM DIA EM QUE POR FIM COMPLETEI O ROSÁRIO E DESEJEI COM TODAS AS FORÇAS DEIXÁ-LO, NESSE DIA, ABRI O ENVELOPE E LI NA LETRA MUITO DESENHADA E BONITA DE MINHA MÃE, QUE JÁ HAVIA MORRIDO, A SEGUINTE FRASE: "SE VOCÊ JÁ CHOROU O ROSÁRIO INTEIRO EM TODAS AS 177 CONTAS, PODE DEIXAR SEU MARIDO, MAS ANTES, PERGUNTE A ELE QUANTAS LÁGRIMAS DERRAMOU POR VOCÊ E DESCONTE DO SEU TOTAL." NESSA HORA PELA FRESTA DA PORTA, VI MEU ESPOSO COM O ROSTO ENTRE AS MÃOS CHORANDO NA SALA. TOMEI O TERÇO E REZEI MUITO ATÉ QUE TODA A IRA SE TRANSFORMOU EM AMOR E NUNCA MAIS PENSEI EM DEIXÁ-LO.
- PERGUNTEI-LHE SE TINHAM O TERÇO AINDA, ELAS SORRIRAM E DISSERAM QUE NÃO, QUE ACHARAM JUSTO QUE ELES OS LEVASSEM NAS MÃOS QUANDO FORAM ENTERRADOS.
- HOJE, DISSE AINDA ENQUANTO JUNTAVA SUA BAGAGEM DE MÃO PARA EMBARCAR, NINGUÉM REZA MAIS E O PERDÃO POUCAS VEZES SALVA O AMOR. É PRECISO REZAR TODOS OS DIAS POR QUEM SE AMA E PERDOAR, PERDOAR SEMPRE.
MARCO ANTONIO ANTUNES
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O BRASILEIRO INFIEL
MARCO ANTONIO ANTUNES
Eu não acredito no Brasil.
Acho o Brasil uma abstração sem qualquer sentido,
Não acredito em seus bem contados 8.547.403,5 km2
Distribuídos em 27 igualmente inacreditáveis unidades federadas.
Eu não acredito no Brasil.
Duvido entusiasticamente do bom selvagem
à espera nas praias de caravelas amigas,
duvido e debocho do escravo negro aprisionado em canas
mas cheio de banzo, ritmo, ginga e capoeiras,
pagando em canto o benefício civilizatório da chibata,
e duvido rindo da hipótese absurda de um português
fedendo a peixe salgado e saudade
das ruas emporcalhadas de Lisboa
ao som de um bandolim rasgando a alma de insuspeitas humanidades...
Eu não acredito no Brasil.
Não acredito em mulatos inzoneiros, luares merencórios,
mães pretas, reis congos, donas de vestidos rendados,
coqueiros que dão cocos, fontes murmurantes
e outras aquareladas fantasias correntes.
Não, eu não acredito no Brasil.
Não acho razoável essa utopia cabocla
de quase duzentos milhões de tolos enlevados
travestidos de alegria num exótico país do carnaval
sito em algum lugar entre fevereiro ou março ao gosto da lua!
Não acredito no Brasil.
Acho o Brasil prejudicial para as crianças
e infundir sentimento de amor a ele no povo
uma descarada má-fé , uma ilusão perniciosa,
porque nada disso tem empirismo possível ou aval de realidade.
Não, eu nunca,
Nunca vou acreditar no Brasil.
Não sei o que seja um brasileiro
esse mito multirracial de índole pacífica
e fuzis AR15 defendendo a droga de uma colina maltrapilha
enquanto assobia sambas lânguidos e sempre novas bossas.
Vão para o inferno!
Eu é que não acredito no Brasil!
Quem já ouviu falar de terra fraterna entre sócios desiguais?
Fora da síndrome de Estokolmo, como ter amor ao opressor?
Qual pátria fundada em solo de injustiça
entre cidadãos escravos pode sobreviver?
Não me venham com essa de Brasil.
Não acredito mesmo nesse acidente de calmarias
em terra tropical que há 500 anos comemoramos.
Não sou tolo de crer na sensualidade da mulata de olhos verdes
E quero que o Diabo morra de indigestão com as bananas
do chapéu de Carmen Miranda!
Ao inferno vocês todos que me pedem fé, porque o Brasil não existe!
Mas estou aqui
agora e desde sempre
de peito aberto e fé adolescente
olhos verdes de esperança e mãos disponíveis,
com entusiasmo de plantão e amor desabitado
para trabalhar por quinhentos, por mil, dez mil anos,
para construir com quem vier operariamente um país novo,
uma pátria nunca vista, uma utopia revelada, uma Nação de amigos.
Estou aqui e quero crer
que podemos sonhar e depois fazer
numa terra em que jorre leite e mel,
um país nunca visto incrível e quase irreal
de gente honesta, fraterna , solidária,
gentil, pacífica e obreira.
Estou aqui à espera do primeiro visionário sem trabalho
que me conte essa fantasia possível desde o nada até as torres
de uma cidade inviável, fantástica e humana
capital imaginária de uma anarquia parlamentarista
onde o futuro do homem vai querer morar.
Estou aqui e quero crer nesse país
quero ser desde já seu cidadão e inventor,
quero dizer seu nome tonto de amor e ensiná-lo a meu filho...!
Quero agora esse país entre sonhos
cujo nome, banhado de justiça, pode até vir a ser
Brasil!
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