DOM PAULO EVARISTO ARNS - UM CARDEAL PELA PAZ

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DOM PAULO EVARISTO ARNS



"Quem tiver dinheiro para comprar carne, em nome de Deus, eu libero para comê-la na Sexta-Feira Santa".
(D. Paulo Evaristo Arns).

DOM PAULO EVARISTO ARNS



Cardeal da Santa Igreja Romana
Arcebispo Emérito de São Paulo

Nascido em Forquilhinha, Criciúma, SC, 14/09/1921.
Ordenação Sacerdotal: Petrópolis, RJ, 30/11/45.
Eleito Bispo Titular de Respecta e designado Bispo Auxiliar do Cardeal Rossi: 02/05/66.
Ordenação Episcopal: Forquilhinha, SC, 03/07/66.
Promovido a Arcebispo Metropolitano de São Paulo: 22/10/70.
Posse como Arcebispo: 01/11/70.
Criado Cardeal por Paulo VI: 05/03/73;

Como Bispo:

Arcebispo Metropolitano de São Paulo de 01/11/1970 a 22/5/1998; Cardeal desde 1973; Membro da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos; Coordenador do Colégio Episcopal de São Paulo; Grão Chanceler da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

Histórico
5º Arcebispo e 3º Cardeal de São Paulo:
Dom Frei Paulo Evaristo Arns, ofm (01/11/1970 a 22/5/98)

Nasceu em Forquilhinha, Criciúma, SC, em 14.09.1921. Ingressou na ordem franciscana em 1939. Ordenou-se presbítero a 30.11.1945 em Petrópolis, RJ. Freqüentou a Sorbonne onde laureou-se em Patrística e Línguas clássicas. Foi professor e mestre dos clérigos, diretor do CIC e jornalista profissional. Trabalhou como vigário nos subúrbios de Petrópolis, onde era amigo das crianças e dos pobres dos morros, quando foi indicado bispo auxiliar de Dom Agnelo Rossi, no dia 02.05.1966 e sagrado em 03.07.1966, como bispo titular de Respetta.
Atuou intensamente na Região Norte de São Paulo. Foi nomeado Arcebispo de São Paulo no dia 22.10.1970, tomando posse dia 01.11.1970.
Perante o núncio apostólico, vinte e oito bispos e arcebispos, diante do governador, do prefeito e cerca de cinco mil fiéis, Dom Paulo tendo a mãe presente, Sra. Helena Steiner Arns, com 76 anos, e seus quatorze irmãos, fez comovente exortação, da qual extraímos:
"Venho do meio do povo desta Arquidiocese a que já pertencia, do clero a quem amo e de quem sou irmão, dos religiosos que comigo se esforçam para serem sinal e esperança dos bens que estão para chegar, dos leigos que entendem o serviço aos irmãos como tarefa essencial de sua existência." Feito Cardeal por Paulo VI no consistório de 05.03.1973, com o título de Santo Antônio na Via Tuscolana.
Assim que assume a diocese incrementa fortemente a participação dos leigos nos passos do Concílio Vaticano II. Realiza a Operação Periferia, vendendo o palácio Episcopal e assume destemida defesa dos direitos humanos constantemente violados pela ditadura militar. Torna-se voz dos sem voz e arauto da justiça social em nossa pátria. É de sua responsabilidade a edição do livro e relatório "Brasil, nunca mais", marco na luta contra a tortura.
Cria novas regiões episcopais, realiza amplo plano de pastoral urbana e lança as bases para a ação colegiada na grande metrópole de São Paulo. Criou as condições essenciais para a entre-ajuda do projeto "Igrejas-irmãs". Em seu tempo Dom Paulo cria quarenta e três paróquias, incentiva e apoia o surgimento de mais de duas mil comunidades de base nas periferias da metrópole paulistana, particularmente nas atuais dioceses sufragâneas de São Miguel, Osasco, Campo Limpo e Santo Amaro, além das regiões de Belém e de Brasilândia. Esta era a resposta eficaz e efetiva ao crescimento desordenado, à miséria crescente e à migração constante e forçada para a capital de São Paulo.
Em 1975 tem como bispos auxiliares, Dom José Thurler, Dom Benedito de Ulhôa Vieira, Dom Francisco Manuel Vieira, Dom Mauro Morelli, Dom Joel Ivo Catapan e Dom Angélico Sândalo Bernardino, cada qual assumindo uma das seis regiões episcopais, divididas em setores de pastoral com autonomia e dinâmica próprias. Ainda serão escolhidos Dom Luciano Mendes de Almeida, Dom Alfredo Novak, Dom Antônio Celso Queiroz, Dom Fernando Penteado, Dom Antônio Gaspar e Dom Décio Pereira. Cada setor deverá assumir e articular as quatro prioridades escolhidas pelo povo: Comunidades eclesiais de base, Direitos humanos e Marginalizados, Mundo do Trabalho e Pastoral da Periferia.
A arquidiocese começa a agir de acordo com planos de pastoral, nos moldes da CNBB, fixando a cada dois anos e depois a cada quatro anos objetivos e prioridades pastorais para garantir eficácia e unidade pastoral evangelizadora. Foram sete os planos de pastoral aplicados no tempo de D. Paulo, sempre motivados pelo lema: De esperança em esperança. As prioridades do 7° plano são: Saúde, Moradia, Mundo do Trabalho e Educação.
Depois de inúmeras divisões de seu território ao longo dos anos, a Arquidiocese tinha em 1997, a seguinte configuração:
seis regiões episcopais,
cinqüenta setores de pastoral,
três vicariatos ambientais,
duzentos e sessenta e sete paróquias territoriais e pessoais,
dez santuários,
quatrocentos e sessenta e uma comunidades eclesiais de base,
vinte e cinco pastorais articuladas pela cidade,
trinta e seis movimentos de leigos,
coordenados por dezenas de ministros e ministras leigas,
com o apoio ministerial de 2337 religiosas,
771 sacerdotes diocesanos e religiosos,
cinqüenta e nove seminaristas,
cinco bispos auxiliares e um vigário episcopal (D. Antonio Gaspar, Dom Joel Ivo Catapan, Dom Antonio Celso de Queiróz, Dom Angélico Sândalo Bernardino, D. Fernando José Penteado, Mons. Walter Caldeira) e o pastor diocesano, Dom Paulo Evaristo Arns.

A arquidiocese compreende somente 635,33 Km2 dos 1509 Km2 do Município. A população, em 1997, era estimada em 9 milhões de habitantes.
Dom Paulo é autor de 48 livros e recebeu mais de uma centena de títulos nacionais e internacionais.


TEXTO



Tocar nos corpos para machucá-los e matar. Tal foi a infeliz, pecaminosa e brutal função de funcionários do Estado em nossa pátria brasileira após o golpe militar de 1964.
Tocar nos corpos para destruí-los psicologicamente e humanamente. Tal foi a tarefa ignominiosa de alguns profissionais da Medicina e de grupos militares e paramilitares durante 16 anos em nosso país. Tarefa que acabamos exportando ao Chile, Uruguai e Argentina. Ensinamos outros a destruir e a matar. Lentamente e sem piedade. Sem ética nem humanismo.
Macular pessoas e identidades. Perseguir líderes políticos e estudantis. Homens e mulheres, em sua maioria jovens. É destas dores que trata este livro. É desta triste história que nos falam estas páginas marcadas de sangue e dor.
Vejo o próprio Cristo crucificado nestas páginas e suas sete chagas de novo abertas diante de nossos olhos. Nossa missão humana e cristã ainda não terminou, pois ainda existem corpos na cruz. Existem pessoas injustamente torturadas em novos antros de tortura. Os impérios do poder especializaram-se nas armas e nos métodos. Dos pregos, correias e espinhos que mataram Jesus em Jerusalém, passou-se às fitas de aço, fios elétricos forjando cruzes maiores e mais pesadas. Com a inteligência do demônio e a vontade de fazer o mal.
Em documento publicado pelo Comitê Brasileiro pela Anistia, secção do Rio Grande do Sul, sob os auspícios da Assembléia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul, em 1984, tínhamos já uma lista incompleta de 339 mortos ou desaparecidos sob o domínio da macabra Ideologia da Segurança Nacional, fiel suporte das ditaduras militares latino-americanas.
Hoje temos em mãos documento mais longo, fruto de séria pesquisa dos próprios familiares nestes últimos dez anos. Fatos novos surgiram. Documentos e valas foram abertas com muita luta e muito empenho. Também com muita dor e muito sofrimento.
Vejo, com o olhar da fé, nestes que morreram assassinados, também surgir a esperança na ressurreição. Deles e de toda a nossa gente brasileira. Pois, como dizia santamente nosso amigo e mártir, Monsenhor Oscar Arnulfo Romero y Gadamez, Arcebispo assassinado pelas mesmas forças da repressão em El Salvador: "Se me matarem ressuscitarei no povo Salvadorenho. Sim, para os que crêem e têm fé, a certeza da morte nos entristece, mas a promessa da imortali-dade nos consola e reanima. A certeza de que Deus Pai não suporta ver seus filhos amados na cruz, nos confirma a ressurreição como o grande gesto vitorioso diante de todos os poderes da morte, do mal e da mentira. Pois, como diz o Apóstolo Paulo: "Realmente está escrito: Por tua causa somos entregues à morte todo o dia, fomos tidos em conta de ovelhas destinadas ao matadouro. Mas, em tudo isso vencemos por Aquele que nos amou". (Rm 8,36-37).
Ainda há muito o que fazer para que toda a verdade venha à tona.
Ainda há muito que fazer para que nossa juventude jamais se esqueça destes tempos duros e injustos.
Ainda há muito por esclarecer para que a verdade nos liberte e para que não tenhamos aquele Brasil nunca mais.
Há ainda muito amor e compaixão em nossos corações capazes de vencer toda dor e todo sofrimento que nos infligiram.
Existem ainda muitos ombros amigos junto aos familiares dos mortos e desaparecidos que tornaram palpável e possível a esperança. E que afastaram o desânimo e o medo nas horas difíceis.
Ombros largos como os do grande Senador Teotônio Vilela até ombros femininos e corajosos da impecável prefeita Luiza Erundina de Sousa. Ombro de apoio incondicional da nossa Comissão de Justiça e Paz de São Paulo, até o próprio ombro chagado e vitorioso do Cristo, visível em sua Igreja, seus discípulos e seus mártires. Carregando em sua cruz a cruz destes que morreram pela justiça em nossa terra. Carregando nestas cruzes a cruz do próprio Cristo.
Este é um livro de dor. É um memorial de melancolias. Um livro que fere, e machuca, mentes e corações. Um livro para fazer pensar e fazer mudar o que deve ainda ser mudado e pensado em favor da vida e da verdade.
Um livro dos trinta anos que já se passaram.
Mas também um livro que faça a verdade falar, gritar e surgir como o sol em nossa terra. Um livro que traga muita luz e esclarecimento nos anos que virão.
Um livro, vários brados, uma certeza verdadeira. Nunca mais a escuridão e as trevas. Nunca mais ao medo e à ditadura. Nunca mais à exclusão e à tortura. Nunca mais à morte. Um sim à vida!

São Paulo, 21 de novembro de 1994

Paulo Evaristo, CARDEAL ARNS
Arcebispo Metropolitano de São Paulo


CASO

Nos anos 70, o então comandante do II Exército, Dilermando Gomes Monteiro, perguntou a dom Paulo se ele era mesmo comunista, como se dizia. O cardeal, espirituoso, respondeu com uma charada: “Em São Paulo, milhares de carros andam só com o motorista. Se cada automóvel levasse no mínimo três pessoas, o tráfego não seria penoso. Na minha opinião, a prioridade deveria ser o transporte coletivo. O senhor acha que isso é comunismo?” O general disse que sim. O cardeal calou-se e, mais tarde, confidenciou a amigos: “Ele deve estar maluco”,BR>





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