BETINHO - UM SOCIÓLOGO QUE SOCIALIZAVA A PAZ

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BETINHO

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Betinho e o Ibase

Desde que nasceu, em 3 de novembro de 1935, na pequena cidade de Bocaiúva, Minas Gerais, Herbert José de Souza, o Betinho, viveu uma trajetória incomum, como ele mesmo contou à revista Teoria & Debate, em novembro de 1991.
"Tive uma infância marcada primeiro pela hemofilia, a doença que se manifesta desde os primeiros dias de vida, e depois pelo fato de ter passado oito anos morando com minha família numa penitenciária onde meu pai trabalhava. Uma parte da infância e da adolescência eu vivi num outro ambiente inusitado, uma funerária. Acho que ninguém nasceu numa penitenciária e se criou numa funerária", ironizou, bem ao seu estilo.
Terceiro de oito irmãos, entre os quais o cartunista Henfil e o músico Chico Mário, Betinho passou parte de sua adolescência em reclusão, por conta de uma outra doença comum nos anos 50, a tuberculose. Foi nessa época, em Belo Horizonte, que ele entrou em contato com o grupo de religiosos que iria mudar sua vida: os padres dominicanos, que exerceram grande influência na Ação Católica e particularmente dentro da JEC - Juventude Estudantil Católica, onde sua militância começou.
A JEC logo se politizou e se transformou na JUC - Juventude Universitária Católica -, na qual o pacato mineiro iniciou sua trajetória de liderança nacional, viajando pelo Brasil com o Centro Popular de Cultura, o CPC da UNE - União Nacional dos Estudantes -, convocando assembléias estudantis em inúmeras faculdades ou disputando a direção da entidade com a Ação Popular (AP), que na época dominava o movimento estudantil.
"Eu fazia parte de um grupo de pessoas extremamente ligadas entre si, com uma convivência intensa. A gente não dava importância a título ou cargo. Quando dizem que eu era da direção, eu acredito que tenha sido, mas não é uma lembrança marcante. Essa questão do poder interno não era determinante", relembrou Betinho em 91.
A vocação intelectual indissociada da militância vem dessa época. Já na Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), ele fez parte do núcleo que gerou o pensamento político da JUC e depois o da AP, articulando-se posteriormente com o grupo de cristãos progressistas da PUC do Rio. E desde então ficaram claros os princípios que marcariam todo o seu discurso e suas ações:
"A militância da Ação Popular foi muito marcada pela ética. O sujeito se engajava na luta com a alma, o corpo, com a vida, com a morte. Nós tínhamos uma militância radicalizada e uma identificação muito grande com os pobres, com os dominados, com a desgraça."

O sociólogo militante

Formado em Sociologia, em 1962, Betinho se engajou nos movimentos operários e na luta pelas chamadas "reformas de base" que marcaram o governo João Goulart. Ao mesmo tempo, exerceu funções de coordenação e assessoria no Ministério da Educação e Cultura, onde articulou a favor do projeto de alfabetização de adultos do então jovem professor pernambucano Paulo Freire, e na Superintendência de Reforma Agrária, além de elaborar estudos sobre a estrutura social brasileira para a Comissão Econômica para a América Latina (Cepal), da ONU.
Depois do Golpe de 64, quando a tendência de formação de grupos guerrilheiros começou a se definir, a AP redirecionou-se para o movimento sindical e para o trabalho com grupos sociais (mulher, jovens etc) e Betinho passou a atuar na resistência à ditadura militar. Após sete meses de organização política no Uruguai, voltou ao Brasil e instalou-se em Santo André, a primeira letra do ABC paulista. E para conhecer de perto a realidade operária, chegou a trabalhar durante seis meses numa fábrica de porcelana, no município vizinho de Mauá. Em tudo o que fazia, assumia sempre a defesa radical das utopias, fazendo da sua própria vida uma bandeira costurada de bandeiras universais. Nunca deixou de se pautar pelos propósitos de participação política, envolvimento social e defesa dos direitos humanos, contra todas as formas de coação e de autoritarismo.
Em 1971, quando a repressão intensificou-se, o "procuradíssimo líder da AP" partiu para o exílio "num rabo de foguete" e, como no poema de Brecht, passou a trocar de país como quem trocava de sandálias. Morou primeiro no Chile, onde viviam cerca de cinco mil brasileiros articulados em mais de 40 grupos de esquerda. Lá deu aulas na Faculdad Latinoamericana de Ciencias Sociales, em Santiago, e atuou como assessor do presidente Allende, deposto em 1973 pelo general Augusto Pinochet, com apoio da CIA - a Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos. Conseguiu escapar do sangrento golpe asilando-se na embaixada do Panamá. Em 1974, já vivendo um processo de desengajamento da AP, foi para o Canadá e depois para o México, onde fez o curso de doutorado e deu novo rumo à sua história pessoal.
Primeiro, decidi reassumir a minha responsabilidade de intelectual. Voltei a fazer cursos e a escrever. Eu acho que a maior conquista que fiz, principalmente com a experiência do Chile, foi de recolocar como foco da minha reflexão a questão democrática. Até um certo momento o estudo do capital ainda era o centro da minha atenção: multinacionais, internacionalização etc. O meu pensamento girava muito em torno da economia política. A partir de um determinado momento eu disse: 'não é a economia política, é a política, e dentro da política, é a questão democrática, por onde passa tudo'.
Durante o exílio, exerceu cargos de direção e consultoria em organizações como o Conselho Latinoamericano de Pesquisa para a Paz (Ipra), a FAO - Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura - e o Latin American Research Unit (Laru), entre outros. Foi também professor efetivo no doutorado de Economia da Divisão de Estudos Superiores da Faculdade de Economia da Universidade Nacional Autônoma do México. Nesse mesmo país, participou da criação do Centro de Estudos Latinoamericanos, que produzia análises sobre a América Latina veiculadas em diversas publicações e até em audiovisuais. Era uma "espécie de pré-Ibase", como gostava de dizer, comparando com o instituto que iria fundar com o amigo Carlos Afonso, dois anos depois de voltar ao Brasil.

A volta do irmão do Henfil

No final dos anos 70, com o aumento das pressões para a abertura política no Brasil, o nome do "irmão do Henfil" tornou-se um dos símbolos da campanha pelo retorno dos cassados e exilados políticos, celebrizado nos versos de " O Bêbado e o equilibrista". Em 1979, com a anistia, voltou ao país. "Eu queria terminar a minha tese mas quando vi já estava tomando o avião para vir embora." E não demorou muito para entrar novamente de cabeça nas lutas sociais e políticas, sempre se propondo a ampliar a democracia e a justiça social.
A democracia, no meu entendimento, é absolutamente incompatível com o capitalismo. Uma sociedade democrática deve necessariamente superar o capitalismo e inventar novas relações no plano econômico, político e social.
De lá de fora, Betinho trouxe a experiência de um novo modo de organização da sociedade civil que não passava pelos partidos políticos nem pelos sindicatos. Eram as chamadas organizações sem fins lucrativos, mais tarde notabilizadas pela sigla ONG, de "não governamentais". No início dos anos 80, ajudou a fundar o Iser - Instituto de Estudos da Religião - e logo depois o Ibase- Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas, uma entidade de caráter suprapartidário e supra-religioso dedicada a democratizar a informação acerca das realidades econômicas, políticas e sociais no Brasil. Desde então passou a recusar qualquer enquadramento no tradicional mundo da política, mesmo no campo da esquerda. Mais importante, para ele, era superar a penosa herança da ditadura, que "perverteu o Estado, intimidou o espírito de cidadania e destruiu a autoconfiança da sociedade".
Betinho também desempenhou papel decisivo como fundador e principal articulador da Campanha Nacional pela Reforma Agrária, congregando entidades de trabalhadores rurais em busca de uma solução para a grave questão da distribuição, posse e uso da terra, que representa um dos principais problemas estruturais dos países "em desenvolvimento". Nessa luta pela democratização da terra organizou, em 1990, o movimento Terra e Democracia, que levou ao Aterro do Flamengo milhares de pessoas contagiadas por mais um dos "delírios" do sociólogo mineiro.

A luta pela vida

Em 1985, Betinho soube que havia contraído o vírus HIV numa das transfusões de sangue que precisava fazer periodicamente, em função da hemofilia. A inevitabilidade da doença sem cura o estimulou a abrir uma nova frente de luta, a defesa dos direitos das pessoas portadoras do HIV ou doentes com Aids. Em 1986, ajudou a fundar a Abia - Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids -, uma das primeiras e mais influentes instituições do País nessa área, da qual foi presidente durante 11 anos e que lhe deu força para enfrentar o maior desafio da sua vida.
Do ponto de vista pessoal, a Aids foi um péssimo presente que recebi numa etapa em que eu acreditava que estava começando a ficar livre da hemofilia. E a hemofilia, com a idade, vai ficando mais domesticada. Nos últimos anos eu estava numa situação estabilizada e a hemofilia praticamente não comparecia. Quando começava a trabalhar essa nova realidade, apareceu de forma bastante contundente a questão da Aids. Ter o vírus significa não somente uma espécie de condenação à morte, mais ou menos antecipada, como também - como o Herbert Daniel chamava - a morte civil. Se decreta a morte do cara, ele está excluído das relações de trabalho, sociais e sexuais. É uma coisa muito forte. E no meu caso isso veio acompanhado da manifestação simultânea da doença em dois irmãos e, um ano e meio depois, da morte dos dois, com a diferença de um mês entre uma e outra. Foi um período barra pesada. Eu decidi enfrentar esse problema de modo político. Durante dois anos falei sobre Aids, no Brasil inteiro: rádio, televisão, jornal e seminário.
Mesmo abalado por estes acontecimentos, Betinho nunca abandonou a militância política, sempre presente em cada evento que levantasse a bandeira do humanismo. Em 1992, integrou a liderança do Movimento Pela Ética na Política, que culminou no impeachment do então presidente Fernando Collor de Mello, em setembro do mesmo ano, e serviu de base para a maior mobilização da sociedade brasileira em favor das populações excluídas: a Ação da Cidadania Contra a Miséria e Pela Vida.
Ao longo de sua trajetória, Betinho consolidou-se como um dos mais brilhantes intelectuais brasileiros, publicando diversos livros, artigos e ensaios que constituem uma instigante bibliografia, sempre com a mesma preocupação de criticar as estruturas que tornam a vida difícil e injusta para milhões de pessoas. Mostrou-se também um "especialista" no trato com a mídia, deixando suas idéias registradas em inúmeras entrevistas. Não foi por acaso que ele foi escolhido o Homem de Idéias 1993 pelo suplemento cultural do Jornal do Brasil.
Herbert de Souza morreu aos 61 anos em sua casa, no bairro do Botafogo, Zona Sul do Rio de Janeiro, no dia 9 de agosto de 1997, um sábado à noite, cercado por amigos e parentes. A seu pedido, seu corpo foi cremado e as cinzas espalhadas pelo sítio da família, na região serrana de Itatiaia. Sua presença viva na memória brasileira comprova a tese do filósofo Emmanuel Mounier, personagem do seu livro A lista de Ailce: "a eternidade penetra nas artérias do tempo".

* Biografia retirada do Cd-Rom "Sementes de Solidariedade: Betinho e o Ibase na Ação da Cidadania, 1993-1997" . Rio de Janeiro: Ibase, 1998.




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