POEMAS E POESIA CATÓLICA

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POEMAS


 


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BEM-VINDO



Bem-vindo, Ele me dirá
Num tal abraço entre irmãos
Que a casa do Pai,
Nunca antes vista,
Eu sinta, de pronto, a minha casa

Ele, primogênito do Espírito,
Há de receber no portão
Um a um cada irmão chegado
Cada irmão renascido
E pelo Pai acordado

Bem-vindo, ele me dirá
E saberei nesse abraço
Quem sempre fui sem saber:
O irmão aventureiro que partiu
Levando consigo uma fortuna do Pai.

Mas que voltou peregrino
De tudo despojado e da ilusão
Sem outra fortuna que a vaga lembrança
De um banquete na casa do Pai.


CONVITE À HUMANIDADE PARA ENFEITAR UM PINHEIRO
De Marco Antunes


Eu quero convidar o mundo inteiro
Pra enfeitar um pinheiro de Natal
Fazer de toda a Terra o seu canteiro
E do infinito cosmo seu quintal.

Bem sei que para muitos nossa festa
Não poderá guardar sentido igual
Mesmo assim com fraternidade honesta
Convido-os para o encontro universal.

Então mando buscar um azulejo
Que represente a um ramo Portugal
E na Alemanha nova o alegre ensejo
Dos muros derrubados afinal.

Sapato de holandesa azul da Prússia,
Sombreiro mexicano colossal,
Gaita escocesa, girassóis da Rússia,
Miniatura indiana do Taj Mahal.

A Solidariedade polonesa
Lembrança da Itália monumental
Chapéu de guarda inglês, fada irlandesa,
A Argentina dançando triunfal.

Artesanato inca do Peru,
A montanha suíça descomunal
Estrela de Israel, noite Zulu
A África do Sul liberta do mal.

O sonho de uma pátria palestina
Pagode do Japão em um postal
Portal que abra abra a muralha e solte a China
Da França peço a arte magistral

Peço à Espanha a dançarina andaluza
E ao triste Chile um poema de Mistral
Da Grécia um símbolo que nos conduza
Ao topo do monte Olimpo imortal.

Ao Brasil, nada peço como enfeite
Apenas que nos mande um bom sinal
De que pra sempre nele se respeite
Todo homem e cada sítio natural.

Minaretes da Arábia como velas
E por piteira a Aurora Boreal
Que a luz venha das estrelas mais belas
E onde hover neve, a neve do Natal...

Mas predominem flores, premaveras,
Em laços de arco-íris ajuntadas
E entre os ramos haja muitas esferas
Com todas as nações representadas.

Em Liberdade, a chama acende a Paz:
Pousa a pomba na ogiva americana!
Seu vôo a gente ajuda, a gente faz
Com asa de Utopia e força humana!

Só não se esqueça um carpinteiro ao lado
Daquela doce mãe sempre amorosa
Nem do sonho de que todo trigo plantado
Resulte sempre em ceia saborosa.

E ainda existe Um a ser lembrado
Para, em coro, embalá-lo pequenino
Nesse único dia em que acordado
Nós deixamos ficar Jesus-menino.

E quando estiver tudo preparado
À força dessa união poderosa
Entenderemos que o mundo sonhado
Nasce a cada dia em luz preciosa:

Toda criança é como um Deus mandado!
Todo Natal, seu renascer divino
A nos lembrar que o Mundo é um legado
Que ainda existe tempo... e dobra um sino!




SONETO DE NATAL

de MARCO ANTUNES

HOJE QUERO DORMIR NA POBRE MANJEDOURA
TENDO APENAS A ASA DE ANJO POR VÉU
COMO SE HOUVESSE HÁ POUCO CHEGADO DO CÉU
E ESTIVESSE CANSADO DA VIDA VINDOURA

. HOJE QUERO O CARINHO DA MÃE PROTETORA
O VELAR CUIDADOSO DESSE PAI FIEL
SENTIR-ME COMO UM DEUS MENINO ALI AO LÉU
OU COMO SIMPLESMENTE SE ALGUM OUTRO EU FÔRA.

HOJE DESEJO APENAS SER ESSA CRIANÇA
QUE, ENQUANTO AGUARDA O SONO, OUVE AO LONGE UM SINO,
MAIS PERTO UM CORO DE ANJOS QUE LHE CANTA UM HINO,

EM TODO CORAÇÃO A VOZ DE UMA ESPERANÇA,
O SOM DA BRISA, ASAS BATENDO, UM DOCE TRINO
E O AMOR QUE DIZ BAIXINHO: “DORME EM PAZ, MENINO!”


O EVANGELHO SEGUNDO MARIA MADALENA


NAQUELES DIAS AS PEDRAS ERAM MUITAS
E MUITAS ME PERSIGUIRAM PELAS RUAS.
EU CORRI EM DIREÇÃO ÀS PEDRAS DE UM MURO
FUGINDO DE OUTRO MURO DE PEDRAS POR HAVER
EM MÃOS , QUEM SABE HUMANAS,
PARA ENTÃO ME EMPAREDAR

. E ERAM MÃOS TAIS
QUE APONTAVAM O MURO
E NADA ALÉM DAS PEDRAS.

EU ERA EXAUSTA DO CAMINHO QUE CORRERA
E AS MINHAS PERNAS JÁ FRACAS
DESISTIRAM PARA CAIR.

E O FIZ AOS PÉS DE UM HOMEM
UM CERTO HOMEM A QUEM TODOS ACORRERAM.

DIZIAM AS VOZES QUE VINHAM DA DIREÇÃO DAS MÃOS
MINHA SENTENÇA E O MOTIVO DE CUMPRI-LA.

OLHEI AQUELES PÉS, QUE DE NAZARÉ DISTANTE
CAMINHARAM ATÉ MEU FIM PARA APROVÁ-LO,
MAS NÃO ERAM PÉS CANSADOS,
MAL DIRIA QUE DE UM HOMEM!

OLHEI SUAS SANDÁLIAS
COMO SE, ILETRADA QUE SOU,
NO PÓ DOS CAMINHOS
PUDESSE LER A MINHA SORTE.

MAIS ATENTA OLHAVA
PORQUE PENSAVA-ME AQUELA
A ÚLTIMA VISÃO ANTES DAS PEDRAS
E ME PERGUNTAVA AOS PÉS DE QUEM
DEUS RECLAMARIA A MINHA VIDA.

SURPRESA, VI QUANDO ESSE HOMEM SE CURVOU
E QUASE ATÉ MEU CHÃO SE ABAIXOU...
NÃO TANTO QUE MINHA MISÉRIA LHE PUDESSE VER A FACE,
MAS O BASTANTE PARA VER SUAS MÃOS.

MÃOS QUE NÃO DESCERAM ATÉ MIM COM PEDRAS
APENAS COM ALGUMAS PALAVRAS QUE,
PARA MIM INUTILMENTE,
ESCREVEU NAQUELE PÓ.

E SUA VOZ SOOU PERFEITA
LÍMPIDA, FRANCA, DOCE E QUASE SUSSURRADA:
-QUE ATIRE A PRIMEIRA PEDRA QUEM NÃO TIVER PECADO!

E AS PEDRAS, MINHAS PEDRAS, CONTRA MIM,
UMA A UMA DESCERAM AO CHÃO
E AS MÃOS QUE AS TROUXERAM
FORAM-SE ENVERGONHADAS
À PROCURA DE UM CORAÇÃO
QUE UM DIA TIVERAM.

E EU, SEM SABER AONDE IR
SE NÃO MAIS AO MURO, SEGUI SEUS PASSOS
E APRENDI COM ELE A RESSURREIÇÃO.

MARCO ANTONIO ANTUNES



SE

KIPLING

Se podes conservar o teu bom senso e a calma
No mundo a delirar para quem o louco és tu...
Se podes crer em ti com toda a força de alma

Quando ninguém te crê...Se vais faminto e nu,

Trilhando sem revolta um rumo solitário...
Se à torva intolerância, à negra incompreensão,
Tu podes responder subindo o teu calvário
Com lágrimas de amor e bênçãos de perdão...

Se podes dizer bem de quem te calunia...
Se dás ternura em troca aos que te dão rancor
(Mas sem a afectação de um santo que oficia
Nem pretensões de sábio a dar lições de amor)...

Se podes esperar sem fatigar a esperança...
Sonhar, mas conservar-te acima do teu sonho...
Fazer do pensamento um arco de aliança,
Entre o clarão do inferno e a luz do céu risonho...

Se podes encarar com indiferença igual
O triunfo e a derrota, eternos impostores...
Se podes ver o bem oculto em todo o mal
E resignar sorrindo o amor dos teus amores...

Se podes resistir à raiva e à vergonha
De ver envenenar as frases que disseste
E que um velhaco emprega eivadas de peçonha
Com falsas intenções que tu jamais lhes deste...

Se podes ver por terra as obras que fizeste,
Vaiadas por malsins, desorientando o povo,
E sem dizeres palavra, e sem um termo agreste,
Voltares ao princípio a construir de novo...

Se puderes obrigar o coração e os músculos
A renovar um esforço há muito vacilante,
Quando no teu corpo, já afogado em crepúsculos,
Só exista a vontade a comandar avante...

Se vivendo entre o povo és virtuoso e nobre...
Se vivendo entre os reis, conservas a humildade...
Se inimigo ou amigo, o poderoso e o pobre
São iguais para ti à luz da eternidade...

Se quem conta contigo encontra mais que a conta...
Se podes empregar os sessenta segundos
Do minuto que passa em obra de tal monta
Que o minuto se espraie em séculos fecundos...

Então, ó ser sublime, o mundo inteiro é teu!
Já dominaste os reis, os tempos, os espaços!...
Mas, ainda para além, um novo sol rompeu
Abrindo o infinito ao rumo dos teus passos.

Pairando numa esfera acima deste plano,
Sem receares jamais que os erros te retomem,
Quando já nada houver em ti que seja humano,
Alegra-te, meu filho, então serás um homem!...

tradução de Féliz Bermudes


Se

                                                                                        Autor: Rudyard Kipling
 

Se és capaz de manter a tua calma quando
Todo o mundo ao teu redor já a perdeu e te culpa;
De crer em ti quando estão todos duvidando,
E para esses no entanto achar uma desculpa;
Se és capaz de esperar sem te desesperares,
Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
E não parecer bom demais, nem pretencioso;
Se és capaz de pensar __ sem que a isso só te atires;
Se encontrando a desgraça e o triunfo conseguires
Tratar da mesma forma a esses dois impostores;
Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas
Em armadilhas as verdades que disseste,
E as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas,
E refazê-las com o bem pouco que te reste;
Se és capaz de arriscar numa única parada
Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
Resignado, tornar ao ponto de partida;
De forçar coração, nervos, músculos, tudo
A dar seja o que for que neles ainda existe,
E a persistir assim quando, exaustos, contudo
Resta a vontade em ti que ainda ordena: "Persiste!";
Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes
E, entre reis, não perder a naturalidade,
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
Se a todos podes ser de alguma utilidade,
E se és capaz de dar, segundo por segundo,
Ao mínimo fatal todo o valor e brilho,
Tua é a terra com tudo o que existe no mundo
E o que mais --- tu serás um homem, ó meu filho!

                                        Tradução de Guilherme de Almeida




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